sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Isotretinoina e seus efeitos adversos

             
  A isotretinoína é considerada o único retinóide natural que apresenta aplicação clínica através de terapia sistêmica para tratamento de acne, apesar de mimetizar os efeitos tóxicos de hipervitaminose A. A isotretinoína demonstra grande eficiência terapêutica relacionada à indução e controle da diferenciação epitelial, nos tecidos secretores de muco ou queratinizantes, à produção de prostaglandinas E2, de colágeno, de precursores da queratina, como os tonofilamentos e tonofibrilas, e ao controle da proliferação de Propionibacterium acne. A acne está relacionada a lesões inflamatórias devido a atividade excessiva das glândulas sebáceas; a inibição da produção de sebo provocada pela isotretinoina faz desse fármaco um importante composto terapêutico para tratamento de acne.
A isotretinoina no organismo mimetisa a intoxicação por hipervitaminose da vitamina A. Devido aos muitos efeitos adversos, o uso oral de isotretinoína é restrito a alguns casos, como leucemia promielocítica aguda (APL) em pacientes refratários ou intolerantes aos regimes citotóxicos de quimioterapia. O tratamento com isotretinoina requer acompanhamento e suporte médico intensivo, já que, além dos efeitos adversos comuns aos retinóides, cerca de 25% dos que fazem o tratamento desenvolvem a chamada síndrome do ácido retinóico-APL (fatal em alguns casos), caracterizada por febre, dispneia, aumento de peso e presença de infiltrado pulmonar, além de outros efeitos relevantes, como abortos espontâneos ou má formação do feto, cefaleias severas, pseudotumor cerebral (papiloedema e/ou aumento da pressão do fluido cerebroespinhal), depressão, diminuição da libido, impotência, insônia.
Os efeitos adversos clínicos da isotretinoína, assim como de outros retinoides, podem ser divididos em dois grupos: efeitos mucocutâneos e efeitos tóxicos sistêmicos.
Como já foi dito, há diminuição da produção de sebo, isso promove as alterações na membranas das mucosas e pele, redução da espessura do estrato córneo e alteração da função de barreira da pele. A secura labial ocorre em 100% dos casos e queilite em 95%.
A toxicidade sistêmica dos retinoides pode atingir músculos, ossos, trato gastrointestinal, sistema nervoso central, olhos, ouvidos, tireoide e rins. Após o tratamento com retinoides, em muitos casos, são observada dores ósseas. No entanto, alterações ósseas significantes em pacientes tratados com isotretinoina não são observadas.
Apesar dos riscos de efeitos adversos severos e as diversas reações causadas nos tratantes de acne, a isotretinoina não deixa de ser uma opção para o tratamento de acnes de grau alto. Por esse motivo acnes mais brandas , normalmente, não são tratadas com este fármaco pelos médicos. Mas, visto o impacto psicossocial em pacientes portadores de acne severa e de suas cicatrizes, o tratamento precoce, seguro e eficaz é imprescindível para a melhor qualidade de vida do indivíduo.

BRITO, Maria de Fátima de Medeiros et al. Avaliação dos efeitos adversos e alterações laboratoriais Clínicos los patients com acne vulgar do Tratados com isotretinoína oral. Uma. Bras. Dermatol. , Rio de Janeiro, v 85, n. 3 de junho de 2010.Disponível a partir do <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962010000300006&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 10 de julho de 2014. http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962010000300006.

DINIZ, Danielle Guimarães Almeida; LIMA, Eliana Martins; ANTONIOSI FILHO, Nelson Roberto. Isotretinoína: perfis farmacológico, farmacocinético e analítico. Rev. Bras. Cienc. Farm.,  São Paulo ,  v. 38, n. 4, Dec.  2002 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-93322002000400004&lng=en&nrm=iso>. access on  10  July  2014.  http://dx.doi.org/10.1590/S1516-93322002000400004.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Creatina quinase como sinalizadora da lesão muscular em atletas de futebol


A Creatina é um nutriente natural encontrado em carne animal, é considerado um efetivo nutriente ergogênico e a suplementação da creatina melhora o desempenho físico humano. Uma vez dentro da célula, a creatina é fosforilada a fosfocreatina durante o repouso pela enzima creatina quinase (CK). Essa enzima possui funções de extrema importância como: criar um reservatório energético prontamente disponível; prevenir um aumento do ADP livre intracelular; criar um reservatório de prótons, permitir sinalização para início da glicogenólise no exercício, entre outros. ¹

As concentrações plasmáticas de creatina quinase (CK), uma enzima que se localiza no interior do “músculo”², têm sido utilizadas como um indicador do estresse imposto à musculatura esquelética,decorrente de contrações excêntricas em diferentes modalidades esportivas, como o futebol, e também como um fator de monitoramento da carga de treinamento. Quanto mais intenso e duradouro for o exercício, maior é a quantidade de micro traumas musculares que permitem o extravasamento desta enzima para o meio extracelular.³ Sendo assim, a CK pode atuar como sinalizadora de lesão muscular ao ser detectada no sangue.²

 
Lazarim e colaboradores (2009) trouxeram dados inovadores para a literatura do futebol, indicando que níveis plasmáticos acima de 975  U/L da enzima creatina quinase (CK) poderiam indicar um quadro severo de alteração muscular e, consequentemente, um indício de que o atleta estaria em possível quadro de instalação do overtraining (síndrome do supertreinamento).²

Uma hipótese que pretende explicar a lesão muscular induzida pelo exercício físico sugere que a perda de integridade da estrutura da membrana celular deve-se, sobretudo, a um estresse metabólico, consequência de um ataque de espécies reativas de oxigênio ao sarcolema, ocasionando um processo de lesão oxidativa na membrana. Dessa forma, a liberação de proteínas musculares, tais como a CK, é tida como uma evidência de dano muscular, pois normalmente esta enzima é incapaz de atravessar membranas celulares. Considera-se, portanto, que a liberação de CK, via vasos linfáticos, refletiria alterações importantes ocorridas na estrutura das membranas, tornando-as mais permeáveis a grandes moléculas tais como as proteínas. ² Tal situação é demonstrada na figura a seguir (Figura 01).


 
Figura 01: Caracterização dos meios intracelular e extracelular de uma fibra muscular. A: estrutura de membrana estável e níveis intracelulares de CK elevados (baixa concentração extracelular); B: estrutura de membrana com aumento de permeabilidade da dupla camada lipídica e fragmentação de proteínas (alta concentração de CK extracelular, com remoção para a corrente sanguínea)².

 
 
Para exemplificar a variação dos níveis de CK no sangue de futebolistas pré e pós-jogos, pode-se observar o gráfico seguinte (figura 02), retirado de um artigo que trata da avaliação sérica de danos musculares e oxidativos em atletas após partida de futsal³ Nele, fica evidente que há um aumento significativo nos níveis de CK imediatamente após o término dos jogos 1 e 2, quando comparados aos valores pré-jogo.4
Figura 02: Avaliação de dano muscular.




Diante dessas considerações, verifica-se a grande relevância da detecção dos níveis de CK no sangue, uma vez que permite compreender o estágio de estresse de cada jogador em relação a ele mesmo e a toda a equipe. Assim, o preparador físico, de posse destes resultados, pode individualizar as cargas de treinamento e otimizar a recuperação de eventuais processos de lesões musculares.²
 
 
 
Referências:
 
 
  1. JÚNIOR, M. P.; MORAES, A. J.; ORNELLAS, F. H.; GONÇALVES, M. A.; LIBERALI, R.; NAVARRO,F. Eficiência da suplementação de creatina no desempenho físico humano. Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício, São Paulo, v.6, n.32, p.90-97. Mar/Abr. 2012. ISSN 1981-9900.
2.      NETO, J. M. F. A.; NADER, B. B.; DONADON, C. C.; MACEDO, D. V.Biomarcadores de estresse no futebol: dosagem sanguínea dos níveis de creatina quinase.Revista Brasileira de Futsal e Futebol, São Paulo, v.4, n.12, p.87-97. Maio/Jun/Jul/Ago. 2012. ISSN 1984-4956.
 
3.      COELHO, D. B.; MORANDI, R. F.; MELO, M. A. A.; SILAMI-GARCIA, E. Creatinekinasekinetics in professional soccer players during a competitiveseason.RevBrasCineantropom Desempenho Hum 2011, 13(3):189-194.
 
 
4.      SOUZA, C. T.;MEDEIROS, C.; SILVA, L. A.; SILVEIRA, T. C.; SILVEIRA, P. C.; PINHO, C. A.; SCHEFFER, D. L.; PINHO, R. A.Serummeasurementofmuscleandoxidativedamage in soccer players after a game. Ver BrasCineantropom Desempenho Hum 2010, 12(4):269-274.
 
 

 
 
 
 

 
 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Anemia esportiva

A capacidade das vias metabólicas em manter um ritmo satisfatório de síntese energética (na forma de adenosina trifosfato - ATP), de acordo com a demanda dos músculos ativos de um atleta, não depende apenas da concentração do substrato energético, mas também de uma ingestão adequada de micronutrientes. Estes são fundamentais para a síntese de enzimas e cofatores enzimáticos capazes de efetuar, em uma velocidade apropriada, as transformações químicas necessárias para a eficaz extração de energia, a partir da estrutura molecular dos substratos. Dentre os vários micronutrientes necessários, o ferro merece destaque, não apenas em razão das consequências atribuídas à baixa concentração desse mineral sobre o metabolismo energético, mas também pela susceptibilidade do organismo à carência do metal.
A carência de ferro pode afetar negativamente o metabolismo aeróbico do organismo, em decorrência da diminuição na concentração sérica de hemoglobina e enzimas envolvidas no processo oxidativo. O estado deficitário desse mineral, na maioria das vezes, tem como etiologia uma ingestão de ferro abaixo das recomendações diárias. Em atletas, há outros fatores além da dieta que comprometem a biodisponibilidade do ferro no organismo, sendo eles:
  Hemorragia gastrintestinal: sintomas gastrintestinais são comumente observados em atletas, principalmente em corredores de longa distância que comumente apresentam hemorragias gastrintestinais.
  No estudo realizado por Nachtigall et al., foram examinados corredores de longa distância do sexo masculino (n=45), utilizando-se como marcador ferro radioativo nas fezes, suor e urina. Na análise, observou-se que 23 indivíduos tiveram decréscimo nos valores de ferritina sérica (<35µg/L) no dia da competição, comparado com o momento em que estavam em repouso. Dessa amostra, oito atletas apresentaram alta prevalência da típica deficiência nos corredores. Assim, a perda de sangue gastrintestinal foi a principal razão para o balanço ligeiramente negativo dos níveis de ferro nesses sujeitos.
Hemólise por impacto: acontece em consequência dos sucessivos traumas mecânicos impostos aos capilares durante a prática esportiva, liberando remanescentes da hemólise, deixando dispersos no plasma os componentes das hemácias rompidas. Dentre os compostos livres no plasma, provenientes das células vermelhas mortas, encontra-se a hemoglobina, cujo componente principal é o ferro.
É importante ressaltar que, isoladamente, a hemólise por impacto não produz um efeito deletério que provoque um grau muito avançado de deficiência férrica, pois há proteínas,como a haptoglobina que  fornecem aporte fisiológico no intuito de conter o avanço da anemia verdadeira. O grau de hemólise muito alto pode gerar o esgotamento dessa proteína no sangue, deixando a hemoglobina livre para ser eliminada por via renal.
Hemólise por radicais livres: Nas atividades aeróbicas ocorre um aumento de 10 a 20 vezes no consumo total de oxigênio pelo organismo, gerando uma elevação de 100 vezes na captação de oxigênio pelo tecido muscular. Cerca de 95% a 98% do oxigênio utilizado pela mitocôndria têm como produto final água e energia. O restante, 2% a 5% devido à forte tendência da molécula de oxigênio receber um elétron por cada vez até a sua conversão a água, pode ser reduzido univalentemente em metabólitos, denominados espécies reativas de oxigênio ou radicais livres.
Transpiração: Durante o processo de transpiração, ocorrem perdas de eletrólitos, dentre os quais os íons sódio e potássio são os mais comumente enfatizados, devido à sua importância. Já os íons ferro, apesar de estarem contidos na composição do suor, aparecem discretamente na literatura, porém isso não os exclui de serem considerados como um alerta para atletas que tendem à anemia. Vilard et al. sugerem que uma grande sudorese pode gerar um deficit de ferro.
Todos esses fatores somam-se a hábitos alimentares de diversos atletas que se privam de muitos tipos de alimentos ricos em ferro, para seguir dietas majoritariamente vegetarianas, por exemplo.
A anemia esportiva não pode ser considerada uma anemia propriamente dita, pois seu diagnóstico pode ser obtido através de um resultado mascarado por processos fisiológicos de adaptação do organismo à prática regular de exercício. Esses processos adaptativos resultam na expansão do volume plasmático, promovendo uma hemodiluição dos componentes do sangue e gerando diminuição na contagem de hemácias e na concentração de hemoglobina, o que explica o perfil anêmico de alguns atletas.
Os exames laboratoriais mais utilizados não representam a reprodutibilidade e sensibilidade necessárias à obtenção de um resultado fidedigno em atletas, como por exemplo a medida da concentração de hemoglobina (valores de referência para homens >130g/L e mulheres >120g/L). Mas as adaptações fisiológica existentes durante a prática de atividades físicas regulares provocam um aumento do volume plasmático e consequente diluição dos componentes sanguíneos.
Desse modo, faz-se necessária a utilização de indicadores que determinem o atual estado das reservas de ferro, como ferritina plasmática, transferrina sérica, receptor solúvel de transferrina sérica (sTfR) e saturação de transferrina, ferro sérico e biópsia da medula óssea. Porém, a biópsia da medula óssea é um procedimento invasivo e dispendioso, sendo praticamente inviável o seu uso.
Observa-se que nem todos os exames hematológicos relacionados à identificação de uma possível deficiência de ferro estão aptos a ser utilizados como parâmetro preventivo ou diagnóstico em atletas. Por esse motivo, faz-se oportuno selecionar métodos de análise férrica que não estejam sujeitos a alterações em seus resultados em decorrência das adaptações sofridas pelos atletas, como os testes de Ferritina Sérica (FS), receptor solúvel de Transferrina Sérica (sTfR), índice sTfR/log ferritina, capacidade de ligação do ferro à transferrina e ferro sérico.


ARAUJO, Luciano Ragone et al . Aspectos gerais da deficiência de ferro no esporte, suas implicações no desempenho e importância do diagnóstico precoce. Rev. Nutr.,  Campinas ,  v. 24, n. 3, June  2011 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732011000300012&lng=en&nrm=iso>. access on  11  June  2014.  http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732011000300012.


domingo, 8 de junho de 2014

Espécies reativas de oxigênio: estresse oxidativo e regulação do metabolismo


Diversas funções fisiológicas são controladas por vias que envolvem sinalização redox (aquelas envolvidas em reações de troca de elétrons por redução e oxidação). O oxigênio, por exemplo, durante o transporte de elétrons na mitocôndria pode ser reduzido parcialmente gerando espécies reativas de oxigênio (EROs), tais como ânion superóxido (O2-), peróxido de hidrogênio (H2O2) e radical hidroxila (OH-). Quando ocorre a perda do equilíbrio entre produção e eliminação de EROs, o que é chamado de estresse oxidativo conduz-se à oxidação de biomoléculas com consequente perda de suas funções biológicas e/ou desequilíbrio homeostático, cuja manifestação é o dano oxidativo potencial contra células e tecidos. A cronicidade do processo em questão tem relevantes implicações sobre o processo etiológico de numerosas enfermidades crônicas não transmissíveis, como o câncer. 2

As EROs são, portanto, radicais livres, cujos mecanismos de geração ocorrem normalmente, nas mitocôndrias, membranas celulares e no citoplasma. A mitocôndria, por meio da cadeia transportadora de elétrons, é a principal fonte geradora de radicais livres. Apesar de haver um controle da produção excessiva de radicais livres nessa organela pela citocromo oxidase, cerca de 2% a 5% do oxigênio metabolizado nas mitocôndrias são desviados para outra via metabólica, e reduzidos, dando origem aos radicais livres.2
 
 
Além da mitocôndria, outros sistemas do organismo apresentam mecanismos de defesa antioxidante, que podem se dar de modo enzimático ou não-enzimático. No último caso, é constituído por grande variedade de substâncias antioxidantes, que podem ter origem endógena ou dietética. ¹ Apesar da existência dessa proteção, os danos oxidativos não são completamente inibidos, o que leva, inevitavelmente, a alterações no DNA e ao desenvolvimento de tumores.
 
Por outro lado, deve-se considerar a contribuição das EROs na regulação de importantes mecanismos biológicos no organismo humano. A evidência de produção elevada de EROs durante a atividade muscular intensa, por exemplo, sugere que o balanço redox intracelular pode exercer papel importante na regulação do metabolismo de lipídios/carboidratos durante o exercício. Sabe-se que há predominância de consumo dos lipídios durante o exercício leve/moderado e dos carboidratos durante o exercício intenso. Em concentração intracelular elevada, as EROs diminuem a atividade do ciclo de Krebs, favorecendo o metabolismo de carboidratos. Nessa condição, há aumento da atividade da proteína desacopladora mitocondrial (UCP3), que intensifica o requerimento de substrato energético.3
 
Evidencia-se, assim, a participação das EROs em mecanismos regulatórios de metabolismo biológico, contrapondo-se, de certo modo, ao seu efeito negativo de causar danos a células e tecidos.
 
REFERÊNCIAS:
1.   Da Silva, C.T.; Jasiulionis, M. G. Relação entre estresse oxidativo, alterações epigenéticas e câncer. Cienc. Cult., vol.66, n.1, São Paulo, 2014.
 
2.   Barbosa, K. B. F.; Costa, N. M. B.; Alfenas, R. C. G.; De Paula, S. O.;Minim, V. P. R.; Bressan, J. Regulationof glucose andfattyacidmetabolism in skeletalmuscleduringcontraction. Rev. Nutr., vol.23, n.4, Campinas, July/Aug. 2010.
3.   Silverira, L. R.; Pinheiro, C. H. J.;Zoppi, C. C.; Hirabara, S. M.; Vitzel, K. F.; Bassit, R. A.; Leandro, C. G.; Barbosa, M. R.; Sampaio, I. H.; Melo, I. H. P.; Fiamoncini, J.; Carneiro, E. M.; Curi, R. Regulationof glucose andfattyacidmetabolism in skeletalmuscleduringcontraction. ArqBrasEndocrinolMetab, vol.55, n.5, São Paulo, June 2011.
 
 
 
 
 

domingo, 25 de maio de 2014

MODELOS DA COAGULAÇÃO SANGUÍNEA: CLÁSSICO X NOVO



Hemostasia é o processo fisiológico cujo principal objetivo é a manutenção da  integridade vascular e da fluidez do sangue após uma lesão vascular permitindo o equilíbrio do sistema circulatório. Esse processo compreende interações complexas entre os vasos sanguíneos, plaquetas, proteínas da coagulação e o sistema fibrinolítico, os quais levam à formação do coágulo sanguíneo e posterior dissolução do mesmo após o reparo da lesão vascular.1

Avanços no conceito de cascata da coagulação gerados por observações clínicas e experimentais demonstraram que o modelo da cascata clássica proposto na década de 60 não reflete completamente a hemostasia in vivo. O novo modelo da hemostasia, baseado em superfícies celulares, é capaz de explicar alguns aspectos clínicos do mecanismo hemostático que o modelo clássico da cascata não permite.2


·         Comparando os dois modelos de coagulação sanguínea


    Modelo clássico
 


Novo modelo proposto – Baseado em superfícies celulares

 


De acordo com o modelo convencional de coagulação sanguínea, tal processo ocorre por meio de ativação proteolítica sequencial de pró-enzimas por proteases do plasma. Essa proposta divide a coagulação em uma via extrínseca (envolvendo elementos do sangue e também elementos que usualmente não estão presentes no espaço intravascular) e uma via intrínseca (iniciada por componentes presentes no espaço intravascular), que convergem para uma via comum, a partir da qual, basicamente, ocorre ativação da protrombina em trombina e, essa, quebra a molécula de fibrinogênio em monômeros de fibrina, que constitui o coágulo estável.

Por outro lado, de acordo com o modelo novo, o processo de coagulação sanguínea é iniciado pela exposição do Fator Tecidual (FT) na corrente sanguínea. O entendimento atual do processo hemostático considera a ocorrência de quatro fases:

ü  Iniciação – O endotélio vascular e as células sanguíneas circulantes são perturbados; Interação do Fator VIIa derivado do plasma com o FT.

ü  Amplificação – Trombina ativa plaquetas, cofatores V e VIII, e fator XI na superfície das plaquetas.

ü  Propagação – Produção de grande quantidade de trombina, formação de um tampão estável no sítio da lesão e interrupção da perda sanguínea.

ü  Finalização – Processo da coagulação é limitado para evitar oclusão trombótica ao redor das áreas íntegras dos vasos.


·         Aplicação prática do novo modelo

Por enfatizar o papel central de superfícies celulares específicas no controle e direcionamento dos processos hemostáticos, a nova teoria da coagulação pode ser considerada um avanço na avaliação de grandes eventos clínicos ligados à hemostasia, o que inclui a interpretação dos testes da coagulação e dos mecanismos fisiopatológicos de seus distúrbios, tal como as hemofilias.
 
 
Referências:
1. Rodrigues, E. S.; Fernandes-Castilho, A.; Covas, D. T.; Fontes, A. M. Novos conceitos sobre a fisiologia da hemostasia. Revista da Universidade Vale do Rio Verde, Três Corações, v. 10, n. 1, p. 218-233, 2012.
2. Ferreira, C. N.; Sousa, M. O.; Dusse, L. M. S.; Carvalho, M. G. A cell-based model of coagulation and its implications. Rev. Bras. Hematol. Hemoter; 32 (5): 416-421, 2010.
 

 
 
 
 
 

sábado, 24 de maio de 2014

Síndrome metabólica, a ação da Lipase Sensível a Hormônio e resistência à insulina

            O metabolismo de lipídios está relacionado a fenômenos como o ganho ou a perda de peso, e é uma variável importante em casos clínicos de cardiopatias e diabetes. Em períodos de altos níveis glicêmicos a insulina atua estimulando a síntese de ácidos graxos, e inibindo a mobilização de gordura no tecido adiposo. Em contrapartida, em períodos de baixa oferta de carboidratos como fonte energética o tecido adiposo mobiliza ácidos graxos através da enzima Lipase Sensível a Hormônio (HSL).
Disponível em: http://www.endocardio.med.br/sindrome-metabolica/
           Todavia, existem casos onde indivíduos desenvolvem resistência à lipólise nos adipócitos - que se caracteriza pela diminuição da eficácia das catecolaminas (entre as mais conhecidas estão a Epinefrina e a Norepinefrina) -, além de um um grupo de distúrbios que inclui obesidade, resistência à insulina, dislipidemia e hipertensão. Tais distúrbios são fatores de ricos para doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo II, e outras condições clínicas, como asma, distúrbios do sono e esteatose hepática. A esse quadro chamamos de síndrome metabólica. Os fatores de risco para essa síndrome são o sedentarismo, a própria obesidade, o envelhecimento, e a má alimentação (dieta excessiva de carboidratos).
            A literatura registra uma relação da resistência à lipólise à menor capacidade de ativação da Lipase Sensível a Hormônio via AMPc, por diminuição da sensibilidade à insulina, que se traduz na menor expressão de receptores β2-adrenérgicos. A menor capacidade de se realizar lipólise também se relaciona à maior intolerância à glicose. Dessa maneira, a dificuldade de mobilizar lipídios em adipócitos poderia contribuir para o aumento da massa adiposa, agravando o quadro de obesidade e reduzindo a sensibilidade à insulina.

Estudos mais recentes relacionam a maior taxa de lipólise em células adiposas de humanos como causa da maior resistência à insulina, e que a menor ação da enzima HSL, seja por inibição farmacológica, seja por modificação genética, resulta em melhora da sensibilidade à insulina em ratos. A partir desses dados pesquisadores têm suspeitado de que a inibição parcial da enzima HSL possa ser um tratamento plausível para a resistência à ação da insulina na síndrome metabólica. Mas estudos com indivíduos obesos demonstraram que defeitos na lipólise levam a menor perda de peso, o que é indesejável nesses casos. Dessa forma, a proposta de estimular a lipólise e a oxidação de ácidos graxos ainda é um tratamento a se considerar.

Portanto, a regulação do metabolismo de lipídios tem se destacado como uma ferramenta para o controle da sensibilidade à insulina relacionada à síndrome metabólica e à obesidade.


Referências:

1.Lehniger, A.L.; Princípios de Bioquímica 5ª ed 2011, p. 916 e 922.
2.Rennan de Oliveira Caminhotto, Amanda Baron Campaña, Fabio Bessa Lima. Inibição da lipólise como alvo terapêutico na síndrome metabólica. Arq Bras Endocrinol Metab vol.58 no.1 São Paulo Feb. 2014

3.Scott M. Grundy, A.L; Definition of Metabolic Syndrome: Report of the National Heart, Lung, and Blood Institute/American Heart Association Conference on Scientific Issues Related to Definition, 2004.

4.Wei Chen; Gerald S. Berenson; Síndrome metabólica: definição e prevalência em crianças, J. Pediatr. (Rio J.) vol.83 no.1 Porto Alegre Jan./Feb. 2007

Imagem de: 
http://www.endocardio.med.br/sindrome-metabolica/

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O cortisol e a memória

        O estresse agudo promove a liberação de glicocorticoides, entre os quais se destaca o cortisol. Esses glicocorticoides atuam no hipotálamo e na hipófise promovendo retroalimentação negativa. Todavia, áreas do sistema límbico, principalmente o hipocampo, estão envolvidas na regulação dos glicocorticoides. As respostas moduladas pelo glicocorticoides são fundamentais para a sobrevivência, mas a exposição a concentrações elevadas por tempo prolongado pode levar a riscos à saúde, incluindo diabetes, hipertensão, hiperlipidemia, hipercolesterolemia, doença arterial, amenorreia, prejuízo no crescimento e reparo de tecidos, e imunossupressão.¹
          A disfunção hipocampal e a deficiência no aprendizado espacial em ratos envelhecidos estão relacionados com níveis elevados de glicocorticoides. Tal raciocínio pode ser estendido para humanos, já que a exposição prolongada a altas concentrações de cortisol causa redução do volume hipocampal e prejuízo de memórias dependentes do hipocampo em relação a indivíduos com níveis normais de cortisol.¹
         
         A imagem acima mostra o hipocampo reduzido de pessoas com aumento agudo de cortisol (à direta) e pessoas com leve declínio de cortisol ao longo do tempo (à esquerda). Note que a redução do hipocampo (representado pelas setas) é visível a olho nu.
         Idosos com doença de Alzheimer apresentam elevados níveis de cortisol em consequência do dano neural na inibição do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, via hipocampo. No entanto, o aumento do cortisol nesse caso não é o bastante para provocar alterações significativas na memória operacional.²


Referências:

1. Lupien, S. J.; de Leon, M.; de Santi, S.; Convit, A.; Tarshish, C.; Nair, N. P. V.; Thakur, M.; McEwen, B. S.; Hauger, R. L.; Meaney, M. J. Cortisol levels during human aging predict hippocampal atrophy and memory deficits. Nature Neuroscience, v. 1, p. 69-73, 1998.
2. de Souza-Talarico, J. N.; Caramelli, P.; Nitrini, R.; Chaves, E. C. Effect of cortisol levels on working memory performance in elderly subjects with Alzheimer’s disease. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v. 66(3b), p. 619-624, 2008.