quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Entendendo um pouco mais sobre a biossíntese da vitamina D

A vitamina D é uma vitamina lipossolúvel importante na absorção de cálcio e fosfato pelo organismo no intestino delgado. Ela possui duas grandes vias de entrada no organismo: a dieta [peixes gordos (como o atum, salmão e cavala), laticínios e gema de ovo] e a biossíntese na pele após exposição à luz solar. A deficiência de vitamina D ou a precária ação, são fatores cruciais no desenvolvimento de raquitismo e osteomalácia. 1,2
O raquitismo é uma doença óssea, comum em crianças e caracterizada pela diminuição da mineralização da placa epifisária de crescimento e a osteomalácia é caracterizada pela diminuição da mineralização do osso cortical e trabecular, com acúmulo de tecido osteóide não mineralizado ou pouco mineralizado. Essas doenças estão relacionadas com a baixa ingestão de leite e derivados ou a ingestão de desnatados (por ser uma vitamina lipossolúvel, necessita da fração lipídica do leite para ser absorvida) e o baixo consumo de alimentos ricos em vitamina D, além do aumento do uso de bloqueadores solares, menor exposição aos raios de sol e baixas concentrações séricas de calcidiol [25(OH)D] em mães que estão amamentando. Entre as formas hereditárias, o raquitismo hipofosfatêmico dominante ligado ao X é o mais comum. 2,3
No organismo a síntese da vitamina D é através do precursor, colesterol que se transforma 7-deidrocolesterol. Na pele ocorre a conversão do 7-deidrocolesterol em colecalciferol (vitamina D3 - inativa) em consequência da irradiação pelos raios solares ultravioletas (UV). A quantidade de vitamina D produzida é dependente do nível de pigmentação de melanina na pele e da duração da exposição à luz solar. Estima-se que 90-95% da vitamina D necessária para o organismo provêm desta fonte. O complemento de vitamina D é obtido através da dieta, fonte exógena.2
 A vitamina D3 é transportada pela circulação até o fígado através da sua ligação com a α1-globulina plasmática. Nos hepatócitos, ocorre a primeira etapa de ativação do colecalciferol que consiste em sua conversão em 25-hidroxivitamina D [25(OH)D], ou calcidiol, catalisada pela enzima 25-hidroxilase. Esse composto retorna a circulação e é convertido no rim (túbulo renal proximal) em 1,25-diidroxivitamina D [1,25(OH)2D], o calcitriol ou forma biologicamente ativa da vitamina D pela ação da enzima 1α-hidroxilase. Essa enzima é estimulada pelo paratormônio (PTH), inibida pela fosfatonina (FGF23) e, via feedback, pela 1,25(OH)2D. 2,3
A 1,25(OH)2D atua sob receptores específicos para a manutenção dos níveis séricos de cálcio e fósforo através da absorção intestinal e reabsorção renal destas substâncias, além da mobilização do cálcio ósseo (juntamente com PTH). Na deficiência de vitamina D já se evidenciam as alterações histológicas clássicas da osteomalácia e raquitismo, com deficiente mineralização da matriz osteóide, além de aumentos acentuados dos níveis de PTH. Nesta situação, a hipocalcemia e a hipofosfatemia podem ser manifestadas. 2,3,4

Referências
1 Princípios de Bioquímica Lehninger.
2 de Vasconcellos, A.D.,  et al., Formas incomuns de raquitismo na infância: relato de caso. Gaz. Med. Bahia, v. 80:1, p. 111-116, 2010.
3 Mechica, J. B., Raquitismo e Osteomalacia. Arq. Bras. Endocrinol. Metab., v. 43, n. 6, p. 457-466, 1999.
Barral, Barros e Araújo, Vitamina D: Uma Abordagem Molecular. Pesq. Bras. Odonto Ped. Clin. Integr., v. 7(3), p. 309-315, 2007.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Fatores antinutricionais de ocorrência natural em alimentos

Os alimentos são todas as substâncias utilizadas pelos seres humanos como fonte de energia para a realização de suas funções vitais. Além de serem nutritivos, os alimentos podem conter fatores antinutricionais, ou seja, compostos ou classe de compostos que, quando consumidos, reduzem o valor nutritivo dos alimentos, interferindo na digestibilidade, absorção ou na utilização de nutrientes.
Esses compostos, quando ingeridos em altas concentrações, podem levar a efeitos danosos à saúde, como por exemplo: diminuição da disponibilidade de aminoácidos essenciais e minerais, irritações e lesões da mucosa gastrintestinal.

Abaixo, estão listados alguns fatores antinutricionais de ocorrência natural:

  1. Inibidores de proteases. Um exemplo desses inibidores é a aglutinina de soja, presente em leguminosas, cujos efeitos incluem danos nas vilosidades do intestino, o que leva a prejuízos nos processos de digestão, absorção e utilização de nutrientes. A redução da absorção de proteínas leva a uma diminuição no ganho de peso e no crescimento. A produção acentuada de enzimas pelo pâncreas (com o intuito de compensar a inibição delas pela aglutinina) gera uma sobrecarga e consequente hipertrofia neste órgão, o que prejudica seu desempenho. Além das leguminosas, esses inibidores podem ser encontrados em alimentos como cereais e tubérculos.
  1. Oxalatos. Os oxalatos não são metabolizados pelos seres humanos, sendo excretados pela urina.  O consumo de oxalato de cálcio eleva o risco de desenvolvimento de cálculos renais, além de causar irritações na mucosa intestinal e interferir na absorção de cálcio, magnésio e zinco. Podem ser encontrados em vegetais folhosos, beterrabas, tomates, nozes, cacau.
  1. Polifenóis. Neste grupo, cujos compostos são encontrados naturalmente em plantas, incluem-se os flavonóides, taninos, lignanas e derivados do ácido caféico. Alguns destes são considerados antioxidantes naturais com propriedades terapêuticas. Os taninos são antinutrientes por causarem efeitos adversos na digestibilidade de proteínas, carboidratos e minerais, diminuição da atividade de enzimas digestivas e danos à mucosa do sistema digestivo.
  1. Nitritos e nitratos. Estes compostos são capazes de reagir com aminas, originando compostos n-nitrosos (nitrosaminas) tendo alto poder carcinogênico, teratogênico e mutagênico. Podem ser encontrados naturalmente em alimentos de origem vegetal (como verduras e raízes) ou animal, e na água por causa dos fertilizantes agrícolas utilizados.
  1. Fitatos. São derivados de ácido fítico e possuem capacidade de formar ligações com íons divalentes, como o cálcio e magnésio, formando complexos solúveis resistentes à ação do trato intestinal, o que diminui a disponibilidade destes minerais. Podem, também, interagir com resíduos de proteínas inibindo enzimas digestivas.
  1. Glicosídeos cianogênicos. São formados por ácido cianídrico (HCN) ligados a carboidratos, e são liberados após sua hidrólise. A mandioca, por exemplo, possui compostos ciânicos e enzimas e quando ocorre a ruptura da raiz, essas enzimas presentes degradam esses composto liberando HCN. A ingestão ou mesmo inalação de HCN representa perigos para a saúde, podendo levar a uma intoxicação e até mesmo um envenenamento. O cianeto, encontrado em alimentos ricos nesses glicosídeos, pode ser um forte inibidor da citocromo c oxidase, bloqueando a cadeia de transporte de elétrons do processo de respiração celular em ruminantes. Podem ser encontrados em leguminosas e raízes.

        Os fatores antinutricionais estão presentes em concentrações variáveis nos alimentos, e alguns procedimentos devem ser realizados para diminuição dos riscos associados à sua ingestão. Entre esses procedimentos, destacam-se: o tratamento térmico, que é uma técnica bastante eficaz para redução ou inativação desses compostos, adicão de água, maceração, trituração e tratamentos enzimáticos.

Referências
Benevides C.M.J. et al. Fatores Antinutricionais em Alimentos: Revisão, Segurança Alimentar e Nutricional, v. 18(2): 67-79, 2011.